Voltei a assistir este filme, que é talvez o filme que eu considere mais essencial de todos - mais até que o Clube da Luta. Mas, antes de eu falar dele, um aparte sobre como eu o comprei.
Sábado fui trabalhar e aquela moça do escritório também foi, terminar a monografia. Com o tempo percebi que - mais uma vez - eu estava sofrendo à toa e que era tudo coisa da minha cabeça. Eu tenho uma capacidade quase indecente de inventar coisas com muito pouco, onde qualquer pessoa que me dá bom dia durante a semana toda passa a ser alguém 'especial' para mim.
Bem, fomos almoçar juntos e estávamos falando de filmes, e eu falei desse filme. Aí lembrei que tinha emprestado para minha psicóloga, que nunca o devolveu; lembrei também que vi para vender em oferta nas lojas a* ali perto, e fomos comprar.
Então ficamos olhando aquelas centenas de filmes na loja, sem hora pra terminar, um mostrando para o outro um filme particularmente bom ou particularmente ruim, falando sobre o que cada um deles lembrava ou recomendando um deles.
Foi quase como ter uma namorada de novo - e eu percebi como sinto falta disso.
E isso me leva de novo ao filme. Só pra lembrar, nesse filme o Jim Carey faz o papel de um homem cuja vida é transmitida para o mundo todo, 24hs por dia, num reality show - mas ele não sabe. Todos são atores, pai, mãe, mulher, melhor amigo, o tiozinho da banquinha, todos. E logo ele começa a perceber que tem algo errado, quando uma figurante se apaixona por ele - e ele por ela - e ela tenta mostrar que o mundo em que ele vive é uma mentira. Mas isso dura muito, muito pouco tempo, até que os produtores a tiram de cena antes que ele descubra a verdade.
Então, ele se casa com a pessoa que determinam pra ele, mora onde mandam, trabalha no que mandam. E para que não possa fugir fazem todo o tipo de barreiras, sendo que as mais eficazes são aquelas que eles forçam dentro da cabeça dele. "Você não pode viajar... temos a casa e o carro para pagar, e eu quero ter um bebê com você. E sua mãe está doente", esse tipo de coisa.
Sempre que vejo esse filme, eu choro. É o único filme cujo roteiro eu comprei, porque quero ter certeza de que meus filhos leiam essa história (se um dia eles existirem). Claro que hoje eu o vejo com outros olhos. E o que enxergo hoje é como a segurança pode ser a maior das prisões; como uma família feliz e uma casinha de cerca branca pode ser uma cadeia, quando deixamos isso acontecer.
E o mesmo com o amor (ou, relacionamentos em geral). Eu quero ter um amor como o da Sylvia, que é o amor que liberta, o amor que mostra as grades da prisão e ajuda a abrir a porta; o amor que, mesmo longe e mesmo sem poder ficar junto torce para que o outro seja livre, mesmo que essa liberdade leve para longe (mas o amor que deseja a liberdade nunca, nunca leva para longe - pelo contrário, é o único que traz para perto).
Hoje eu vivo numa prisão. Sofro no meu trabalho porque penso que não vou conseguir trabalhar num lugar melhor, que vou perder meu seguro de vida e não vou poder fazer outro, que é a única chance de trabalhar num escritório grande. E quando não consigo fazer o que esperam eu me machuco - eu penso que eu devo me castigar, porque todo mundo me castiga, então eles tem que estar certos e eu, errado. E vejo qualquer relacionamento como uma prisão, como a perda da minha liberdade, como se eu não pudesse fazer com outra pessoa as coisas que eu faço sozinho; tenho vergonha dessas coisas e acho que ninguém vai me aceitar do jeito que eu sou.
Não sei se consigo sair dessa prisão, ainda. Não sei se vou conseguir parar de me cortar tão cedo. Mas é bom ser lembrado de algumas coisas.
(e, só pra constar, o rosto da Sylvia me lembra dolorosamente o rosto da Carol).
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