"Oi lux, como ce tá?
Espero que esteja tudo bem. Aqui teve carnaval, e estamos voltando agora... mas eu sei que você nem tem esse tipo de folga aí. É estranho pensar nisso.
Eu tinha escrito este e-mail hoje de manhã e só agora vi o mail que você mandou. Mas aqui tem muito do que talvez você fosse me dizer...
Mais uma vez, eu tô escrevendo porque preciso escrever - acho que estou precisando voltar pra terapia, mas não tenho grana pra isso por enquanto. Então, vou entupindo tua caixa nesse meio tempo (nem se incomode em responder... só o fato de saber que tenho alguém pra mandar minhas coisas é toda a ajuda de que eu preciso).
Tenho conseguido ficar sem me cortar esse tempo todo, embora esteja sendo muito, muito, muito difícil. Às vezes eu tenho vontade de cortar meus braços fundo, pra ver o sangue escorrer e conseguir saber que é dali que tá vindo a dor, não de algum lugar que não sei dizer onde é...
Tentei fazer as coisas diferentes nesse carnaval (sabe, notei que SEMPRE passo os carnavais sozinho, pelo menos nos ultimos cinco anos ou mais. Interessante...) Saí com aquela psico da internet, fomos ao cinema. E, bem, foi horrível.
Sabe lux, eu não sei o que acontece. Caramba, eu penso no que pode ter acontecido de errado e não entendo... primeiro, a escolha da pessoa. Era alguém com quem a conversa ia bem, conversávamos bastante e os assuntos se encaixavam; eu e ela já tínhamos nos visto na cam, esse tipo de coisa. Depois, eu me comportei superlegal... me arrumei, fui gentil, atencioso, deixei-a na porta de casa, tudo isso.
Fico tentando entender onde eu erro. E não consigo... é por isso que eu acredito no que os outros falam, que eu sou esquisito e um cavalo, porque eu nunca percebo onde estou errando e mesmo assim os resultados são os mesmos.
A verdade é que, nesse exato momento, eu to com medo de ficar sozinho. Estou evitando a menina do escritório a muito custo (mas evita-la é a melhor coisa que posso fazer... estou tentando não pensar nela. Mas é foda.) e é claro que a perspectiva de ter outra pessoa me ajudava a superar.
Escrevendo isso eu começo a pensar no quanto eu sou confuso, porque eu tinha outra pessoa, que era a jacqueline, e isso não me ajudava. Ela estava do meu lado, inclusive quando eu fui internado, e eu sempre reclamei; aliás, nos tempos da Dóris foi assim também. Afinal, o que eu quero da vida? Será que eu quero demais ao procurar alguém que seja companheira e ao mesmo tempo seja alguem com quem eu possa conversar sobre tudo? Bem, o que tenho de certo é o seguinte: de todas as pessoas que estiveram na minha vida, as duas únicas que foram realmente minhas companheiras foram só a Doris, a Tina e a Jacqueline; mas, ao mesmo tempo, com nenhuma das duas eu me sentia completo, porque não conseguia conversar com elas. Ao mesmo tempo, chegava um momento em que eu me sentia sufocado com essa companhia, porque era excessiva - até hoje lembro que a Doris nao me deixava tomar banho sozinho porque queria 'ficar conversando', ou a Jacqueline me cobrando que eu não tinha mandado mensagem para ela e ja eram dez horas da manha.
Por outro lado, as únicas com quem consegui conversar foram a Viviane, a Carol e a moça do escritório; a moça do escritório ainda conseguiu parecer ser minha companheira, enquanto interessou a ela. E essas sempre se mostraram meio avessas quando precisei de algum tipo de companhia, quando precisei delas - e não o contrário. Interessante que essas perdas foram mais doídas que as outras, foram mais agudas e incisivas. Tenho a impressão de que eu considerava essas mulheres 'superiores'; eu sempre me esforcei mais pra impressioná-las, quase como se as mulheres 'companheiras' tivessem 'obrigação' de gostar de mim, enquanto essas outras 'inteligentes' eu devesse 'provar que sou digno delas'.
Acho que nunca tinha parado pra pensar nas coisas sob essa ótica, detalhando e analisando cada coisa de um ponto de vista racional.
Tá, e todo o resto? Todas as outras que passaram por minha vida? Nessas, eu não tinha nem uma coisa, nem outra. Uma parte era essa coisa de "tenho que estar com alguém", era só puro e simples medo da solidão. Outras, foi porque "era possível" - ela estava me dando bola e era uma chance de estar com alguém e fazer sexo. Caramba, como eu me vendi barato! Mas percebo que, se alguém pode me rejeitar, eu sou incapaz de fazer o mesmo: não posso 'perder a chance'. Por que será, Lux? Eu nem participo de um grupo de amigos para quem contar minhas proezas e praticamente ninguém sabe o que acontece. Acho que tenho que provar algo pra mim mesmo... talvez provar que ainda posso servir pra alguém, por mais que eu não goste realmente dessa pessoa.
As exceções são raras demais para serem contadas. Ou é alguém que acho que tem 'obrigação' de gostar de mim e eu desprezo, especialmente porque não considero inteligente o suficiente; ou é alguém que eu acho inteligente, do meu nível, mas mesmo assim eu acho que eu tenho 'obrigação' de provar o tempo todo que consigo acompanhar sempre; ou é alguém que me deu bola e eu 'tenho' que aproveitar, mesmo não gostando.
Por que eu fico nestes ciclos? Por que eu repito meus erros o tempo todo? O pior é que, nas mais das vezes, já sei como vai terminar. No primeiro encontro já sei se a garota é do tipo 1, 2 ou 3; já sei como vai ser: com o tipo 1, vamos ficar junto, com algo relativamente sério - enquanto eu reclamo que ela não me dá espaço e eu não gosto dela de verdade, que ela não me completa e eu saio procurando alguém do tipo 2, normalmente enquanto ainda mantenho meu relacionamento, até que dou um jeito de desprezar tanto a pessoa que ela não aguenta.
Se é com alguém do tipo 2, eu mudo meu jeito de ser pra virar um cachorrinho e me submneter, até que a pessoa se desinteressa e termina comigo, e eu fico me martirizando. Aqui eu não procuro outra pessoa.
E se é alguém do tipo 3, eu fico levando a coisa enquanto dá, ao mesmo tempo em que procuro outra pessoa e também fico reclamando.
Será que a felicidade é diminuirmos nossas expectativas para que elas se encaixem na realidade? Às vezes eu acho que procuro uma mulher que não existe, alguém perfeito demais - ou, se existe, alguém que não tem o menor motivo pelo qual se apaixonar por mim, porque eu procuro alguém que seja quase uma semideusa enquanto eu sou só uma pessoa normal, nem melhor nem pior do que ninguém.
Será que existe alguém que não se encaixe nestas três categorias de mulheres com quem me relaciono?
Será que sou capaz de me relacionar com alguém que seja desse mesmo jeito, mas dar um final diferente?
O que será que acontece, será que o problema é com as minhas expectativas que são altas ou são incertas? Ou o problema é a forma com que eu vejo o outro, que vejo sempre como alguém incompleto ou não como uma pessoa com sentimentos?
Óbvio que você nem tem como responder isso tudo né, se nem eu ainda sei responder... Mas parar pra pensar nisso é, no mínimo, interessante. Ainda não sei como sair desse círculo, ainda não sei o que posso fazer de diferente, mas ao menos estou pensando.
Ontem eu fui no mercado e a moça que trabalhava no caixa era bastante bonita e falou comigo (eu estava de fone de ouvido e ela comentou algo do tipo 'hm, só ouvindo música' ou algo do tipo). Eu quis dizer que para ela devia ser ruim não poder ouvir música enquanto ela não saísse e que isso ainda ia levar mais uma hora; mas não consegui me fazer entender. Reformulei a coisa três vezes, e a cada vez ela entendia alguma coisa... tomei isso como um sinal claro do quanto eu sou confuso quando me comunico com alguém de uma forma que não seja escrita.
Talvez isso explique o porquê de ter sido tão ruim com a psicóloga. As conversas no msn foram boas, mas estou perdendo meu sentido social. A mesma coisa aqui no escritório, onde escrevo bem mas me isolam numa sala; a mesma coisa no mundo, onde minha maior amiga é você, com quem só 'falo' por escrito.
Ou seja, não sei o que quero; ao mesmo tempo, não consigo me fazer entender. Parece meio difícil conseguir alguma coisa desse jeito, hein? :P
E mesmo sabendo disso tudo, ainda me sinto sozinho, e a falta da moça do escritório ainda é muito dolorida, quase insuportável. Mas preciso sobreviver, não tenho outra escolha.
Enfim, esse e-mail começou de um jeito e depois saiu totalmente diferente...
Só o que eu sei é que me sinto dolorido, assustado e sozinho."
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